Diante da demanda latente por espaços públicos com melhor qualidade paisagística e material, aptos à longa permanência e à diversidade de usos, fabricantes de mobiliário urbano têm investido no desenvolvimento e comercialização de bancos, equipamentos esportivos e abrigos de ônibus, entre outros, no Brasil. A ideia é favorecer o compartilhamento de áreas que, reurbanizadas, podem dar mais conforto ao usuário.

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Há três anos, quando a empresa tcheca Mmcité 8 entrou no Brasil, “era comum termos que explicar [aos potenciais clientes] a pertinência do mobiliário urbano de boa qualidade”, assinala o diretor da companhia no país, Tomáš Vrtiška. Ele afirma que na construção de um parque, por exemplo, o gasto máximo com o item é de 10% do valor total, o que não impede, contudo, a sua contratação tardia e muitas vezes equivocada. “Eu percebia um grande contraste entre as obras de arquitetos brasileiros renomados, como Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Burle Max, e outras mais cotidianas, como prédios e hotéis, onde faltava zelo com os detalhes do mobiliário coletivo”, assinala.

Hoje, a empresa desenvolve projetos em diversas cidades, como São Paulo, Jundiaí, Campinas, Fortaleza, Belo Horizonte, Pelotas, Brasília e Curitiba, entre outras, em que utiliza materiais duráveis e resistentes, mas que, ao mesmo tempo, tragam leveza para os espaços. “Não queremos fazer um banco de concreto que pese uma tonelada”, detalha Vrtiška. Entre os trabalhos de destaque da Mmcité 8 está o da orla da Barra, em Salvador, onde foram instalados bancos adaptados com um sistema de remoção sofisticado, pois precisam ser retirados periodicamente, durante o carnaval. No seu portfólio há ainda abrigos de ônibus em Fortaleza, feitos a partir de material leve e vidro.

Comparando produtos feitos no Brasil aos europeus, Vrtiška salienta a vantagem do material de fixação e conexão aqui empregado, um aço inoxidável A4 (norma ABNT 316), assim como a qualidade superior da embalagem, que precisou ser reforçada “devido às grandes distâncias percorridas”. A estrutura usada para a fixação, aliás, é parte estratégica dos projetos, muitas vezes implantados em cidades que enfrentam problemas com vandalismo e com a utilização frequentemente inadequada. Além disso, entram em pauta no desenvolvimento do design a interface climática e a consequente necessidade de que o mobiliário resista a intempéries, salinidade, maresia, sol e chuva.

O escritório Sidney Quintela Arquitetos Associados, sediado em Salvador, desenvolveu em parceria com a indústria portuguesa Line uma linha de mobiliário urbano com traço retilíneo e custo compatível com a fabricação em grande escala. “A ideia era privilegiar o contato com a cultura local, motivo pelo qual usamos madeira certificada brasileira”, afirma o arquiteto titular do escritório e autor da linha, que será comercializada também nos demais países da América Latina e na Europa. Também em Salvador, no bairro Rio Vermelho, a orla receberá a linha completa da Line, com bancos, floreiras, cinzeiros, paraciclos e lixeiras, estas desenvolvidas em tamanho especial para atender ao descarte de cocos. Além disso, o escritório fez um projeto exclusivo, encomendado pela prefeitura da capital baiana, para um mobiliário urbano de alimentos e bebidas – os quiosques de praia padronizados, instalados em 150 pontos.

Outra tipologia recorrente nas cidades brasileiras atualmente é a do mobiliário urbano esportivo. Especializada nesse segmento, a Mude já implantou 41 estações de ginástica em toda a orla do Rio de Janeiro, como o projeto, em andamento, Rio Praia Maravilhosa. Há ainda o projeto Rio Academia, que, com equipamentos ao ar livre montados na praia de Ipanema, recebeu neste verão quase 4 mil alunos. Também foram instaladas outras 80 estações de ginástica nos estados do Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo, Piauí, Pernambuco, São Paulo, Ceará e Minas Gerais. A empresa trabalha com o conceito de construção de cidades saudáveis Building Wellness Cities.

No entanto, o fundador da empresa, o engenheiro de produção Marcus Moraes, relata os desafios que enfrentou para implantar esse tipo de projeto no Brasil. “As dificuldades são a cultura brasileira e o sistema de aquisições das administrações públicas. São privilegiados os produtos mais baratos, sem considerar qualidade e design nas licitações. Para contornar a situação, adotamos um modelo de negócios no qual os patrocinadores financiam nossos projetos e ao poder público cabe apenas a autorização do uso”, explica.

A marca registrada das peças da Mude é o aço inoxidável, que, em cidades costeiras e em praias com muito vento, recebe um polimento especial para diminuir a oxidação por pitting (corrosão formada por pequenas cavidades, podendo perfurar a camada metálica). “A alta durabilidade é a principal vantagem, mas o aço inox traz consigo atributos de beleza e sofisticação, além da facilidade de manutenção”, detalha Moraes. Ele observa que, apesar do uso de produtos e matérias-primas de elevada qualidade, os equipamentos são preservados e cuidados pela população.

fonte: Texto de Gabriela Nunes| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 422